Acho que já escrevi a respeito, não tenho certeza. Mas no terceiro ano do curso primário, que me lembre, os alunos recebiam merenda da prefeitura do município. Mas nem todos. Só os que eram considerados pobres, filhos de operários. Meu pai era motorista de caminhão, eu era considerado rico, vejam só. Mas essa discriminação não me atingia nem me magoava, embora devesse fazê-lo. Geralmente a merenda era pão com mel. E eu detestava pão com mel. Mas por que me lembro disso? Não me magoou mesmo? Acho que não. Apenas acrescentou ao meu caráter mais algumas qualidades de discernimento, mais algumas observações e análises a respeito da vida e das pessoas.
Meu pai começou trabalhando com um caminhão à frete. Carregava tijolos, areia, e até laranjas do enorme laranjal que antigamente era Nova Iguaçú. Depois passou a viajar por todo o Brasil. Eu gostava quando ele entregava as revistas da EBAL (Editôra Brasil América Ltda), que fez parte da minha infância. Sempre vinham algumas revistas de histórias em quadrinhos para mim. A EBAL mantinha estreito contato com seus pequenos leitores. Cheguei até a enviar alguns desenhos meus para eles e obtive palavras de incentivo.
Alguns amigos meus não puderam continuar os estudos. Aqueles que ganhavam a merenda de pão com mel, realmente seus pais não tinham como financiá-los. Eu fiz o curso ginasial. Pago. A mensalidade nunca atrasou. Daí pra frente foi comigo. Entrei na Escola de Aeronáutica, depois na Escola Nacional de Engenharia. Meu pai nunca mais precisou pagar nada para mim. Eu sou inteligente. Não aquela inteligência de ganhar dinheiro. Essa infelizmente eu não tenho. No concurso que fiz para a Petrobrás eu não estudei. Não havia o que estudar. Entrei no grito. E no concurso interno para programador também entrei no grito. 800 candidatos, passaram 200. Na fase seguinte passaram 36. Mais uma prova. Foram aprovados 22. Após três meses de aulas foram admitidos na empresa apenas 15. Os outros sete foram chamados três meses depois. Eu fui o décimo colocado.
Após 19 anos fui aposentado pela empresa. Não fui um modêlo de funcionário, talvez por dois motivos que não quero explicitar aqui.
O destino é caprichoso. Achei que ao me aposentar iria para a Bolsa de Valores para comprar e vender ações. E olhem que não tinha boas recordações da Bolsa. Perdi muito dinheiro lá. Acabei como queijeiro. Mas isso é outra história.
Resumo da ópera: não me tornei um grande cientista, um engenheiro, um analista de sistemas da Petrobrás. Mas estou vivo, enxergando, não perdi a visão. Vejo as roubalheiras que estão sendo cometidas cotidianamente. Por que meus amigos não vêem? Porque não querem ver, acredito que sim. Acham eles que estão comendo pão com mel? Eles votaram no hôme. Quando irão descobrir que estão comendo pão com fel?